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Álcool

Entrevistas:
Dependência química





Dr. Ronaldo Laranjeira é médico, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Escola Paulista de Medicina na Universidade Federal de São Paulo e com PhD em dependência química na Inglaterra.

Mecanismo biológico da dependência

DrauzioQuais são as pessoas que você classifica como alcoólatras?
Ronaldo – A pessoa torna-se alcoólatra à medida que prolonga e repete o uso nocivo do álcool e surgem as ressacas de repetição. O que é a ressaca? De alguma forma, é a resposta do cérebro a uma dose excessiva de álcool.
Existem dois componentes da ressaca. Um é o componente tóxico do álcool. Um vinho de baixa qualidade provoca pior ressaca porque contém mais impurezas, mais metanol, mais chumbo. O outro componente é a ação farmacológica do álcool no cérebro. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e o cérebro responde com o efeito rebote se exposto a quantidades maiores dessa substância. Ao contrário do efeito relaxante e agradável das doses iniciais, a pessoa acorda no dia seguinte à bebedeira mais excitada, irritadiça, inquieta e ansiosa, mas se sente melhor se começa a beber mais cedo, porque alivia os sintomas da crise de abstinência. As ressacas de repetição fazem parte dessa síndrome e são uma forma de o corpo demonstrar que se ressente da falta do álcool.
Dessa fase em diante, a pessoa bebe não mais porque seja agradável nem socialmente oportuno, mas para atenuar o desconforto provocado pelo próprio álcool. Esse é mais ou menos o mecanismo biológico da dependência de álcool. Quando o quadro se agrava, as pessoas já despertam com tremores, suando, muito irritadas e tensas. Bebem pela manhã para se sentirem mais calmas e continuam bebendo durante todo o dia para aliviar os sintomas de abstinência.

DrauzioOs sintomas de abstinência vão ficando cada vez mais freqüentes e intensos?
Ronaldo – Vão ficando, e a pessoa tem de usar a própria substância com que se intoxicou para aliviar os sintomas. Nisso se constitui basicamente o mecanismo da dependência.

DrauzioÀs vezes, as pessoas dizem: hoje não estou bom para beber ou hoje estou ótimo para beber. O que explica essa sensação diferente de um dia para o outro?
Ronaldo – Acho que o álcool é uma droga que produz tantos efeitos que, às vezes, por uma série de problemas físicos, a pessoa pode não se sentir disposta para beber. No entanto, para a grande maioria que se encontra no processo de uso nocivo ou de dependência não existem dias mais ou menos confortáveis em relação ao álcool, porque a necessidade de beber sempre fala mais alto. É isso que evidencia melhor a transição entre uso nocivo e dependência. Quanto mais dependente a pessoa for, maior a necessidade e menos dias ruins para beber.

DrauzioNa verdade, vai ter dia ruim para ficar sem beber…
Ronaldo – Os dias serão ruins se o dependente não beber. O tremor e a irritação aumentam e ele não consegue controlar-se nem funcionar direito. É um mecanismo parecido com o da dependência do cigarro que, de certo modo, é mais poderoso ainda. Os sintomas de abstinência são intensos, porque o cérebro reclama da falta de nicotina. No caso dos alcoolistas, reclama da falta de álcool.